Camelo, Amarante e Thiagão

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Antes de mais nada, quero dizer que gosto bastante do repórter da Folha Thiago Ney, mas de vez em quando ele escreve umas coisas na coluna Conexão Pop da Ilustrada que me deixam perplexo. Acredito que eu e alguns fãs do Bob Dylan tenhamos o mesmo problema. Então, de antemão, peço desculpas para discordar hoje do amigo e trazer a público algumas diferenças de ouvido. O caso é o uso de um expediente, ou melhor, um de um ardil crítico que me incomoda bastante.

Para falar das carreiras solo dos dois principais hermanos, Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, ele precisa opor os dois trabalhos de forma um tanto apressada e descer a lenha no disco “Sou”, de Camelo.  Para os assinates da Folha e do Uol, é possível ler a coluna do Thiago clicando aqui. Para o resto do mundo, resumo. Diz ele: “‘Nós’, disco de Camelo, beira o insuportável. O que o Los Hermanos tinha de pior – a inútil idealização de uma época que não volta mais; a melancolia auto-indulgente, letras tão idílicas que fariam João Gilberto passar por contestador; arranjos que vão na direção do samba-canção e da tradição MPBística, que tateiam sem chegar a lugar nenhum”. Esse horror todo, enquanto Amarante traz um “clima de total descontração, com músicas que caminham com naturalidade pelo reggae, pelo pop californiano dos anos 60, com algumas paradas para retoques psicodélicos.”

Não ficaria tão incomodado se não visse qualidade no que o Thiagão critica, embora discorde também do conteúdo formal da crítica. O que o disco de Camelo tem de mais interessante é justamente a atualização da tradição, é o poder de beber da boa música brasileira sem deixar de inovar, principalmente nos arranjos, fazendo com que ela soe revigorada e faça sentido nos nossos tempos. Ao usar as tecituras de guitarra do Hurtmold, com suas texturas delicadas, obviamente calcadas nas dissolução do power chord do pós-rock, dialoga com uma outra visão de música, que considero bastante desafiadora e ainda atual e válida. E não é só isso que “Sou/Nós” traz. A beleza do piano de Clara Sverner, por exemplo, que toca territórios brasileiros com uma sutileza de um Eric Satie também são pontos altos. Até quando Camelo usa a forma extremamente carioca da marchinha, com seus metais ensolarados, mostra como é bom não esquecer do passado para olhar o mundo de hoje.

Um fã de reggae e de música pop sessentista pergunta: por que o pop californiano dos anos 60, a psicodelia e o reggae de Amarante são necessariamente melhores? Não seriam também outras leituras de outras tradições, igualmente antiquadas? Por que a melancolia não pode ser equiparada à descontração?

Sempre achei que o que fazia do Los Hermanos a banda pop brasileira mais importante depois da Nação Zumbi era justamente o encontro do pop mundial com a tradição brasileira, além das ótimas letras tanto de Camelo quanto de Amarante. Era um privilégio, numa geração tão carente de bons letristas, ter essas duas figuras juntas escrevendo música.

Agora, separados, os dois lançam trabalhos excelentes, cada um a seu modo. Quando li a crítica do Thiagão nesta manhã, lembrei-me de uma declaração que me foi dada há muitos anos pelo violonista André Geraissati. Falando de suas influências, ele citava os violonistas da bossa Paulinho Nogueira e Baden Powell, e dizia que a diferença era que Paulinho era a lua e Baden o sol. Nunca mais consegui ouvir um afro-samba sem tomar um banho de sol. Acho que a comparação de Geraissati serve bem aos dois hermanos. Camelo é lua, Amarante, sol. E, pensando em termos astrofísicos, é mais comum eles conviverem bem em lindos fins de tarde do que serem eclipsados um pelo outro.

Outra comparação que me deixou bastate perplexo foi a com João Gilberto. Goste ou não do violonista mais inovador deste país, é de uma injustiça terrível usá-lo como exemplo em termos de letras. A temática do “Amor, o sorriso e a flor” da bossa-nova não é obra de João Gilberto, que pouco se arriscou a escrever letra de música. Seu talento de letrista está em coisas como as ultra-contidas “Bim Bom” e “Undiú”. João era um modernizador do samba, da batida no violão. Culpe pelas letras, se for o caso, Carlos Lyra, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Newton Mendonça… De qualquer forma, as letras de Camelo, não menos auto-indulgentes que as do Morrissey, para entrar no terreno do pop, e têm uma qualidade indiscutível. E o cantar “desafinadamente” tradicional de Camelo as deixam ainda mais emocionates, em nenhum momentos enjoativas, ou insuportáveis.

Só dou um desconto porque certamente eu e meu amigo Thiago andamos por desertos bem diferentes. Ele está à espera do Oasis para ouvir o melhor disco do ano. E gosto de areia movediça. Mas, pera aí, Oasis não era aquela banda dos anos 90 que desenterrou o barbeiro do John Lennon?