Eis aqui

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“O que a gente chama de música popular hoje está ligado à tradição nacional popular, mas se industrializou e se transformou numa coisa que não é mais música popular, nesse sentido da música rural ou mesmo do folclore urbano, como existe no Rio de Janeiro o samba de morro, etc. Mas é uma música de todas as classes e de classe nenhuma, é uma música vulgar, é um produto para consumo geral.

“A arte que a gente faz é a arte do disco, isso é que é uma coisa, isso é que é uma coisa, e nesse lugar está a música do nosso tempo. Tenho a impressão de que a música dos Beatles e dos Rolling Stones talvez seja a manifestação musical mais importante do nosso tempo. Pouco me importa então a discussão entre popular e erudito, acho que a vulgarização da música, ela ter sido transformada em produto, faz dela uma outra coisa que já é vista de uma outra maneira, e daí é que sai alguma coisa. (…) É sob o signo do produto que a música está existindo.”

Neste nosso momento, em que a música como produto está totalmente em xeque, para não dizer em exitinção, é interessante ver uma opinião tão valiosa sobre hora em que o disco e, mais,  o pensamento sobre o álbum, o LP, estava se consolidando como uma nova forma de fazer e idealizar a arte. O depoimento é de Caetano Veloso, e foi dado a Zuza Homem de Mello em 20 de agosto de 1967, dois meses antes do lançamento de “Alegria, alegria”. A reflexão de Caetano está no fim do ótimo Eis aqui os Bossa Nova (Martins Fontes), revisão ampliada do livro lançado originalmente em 1976, e há muito esgotado.

Como foi feito com o jazz em Hear me talkin’ to ya, de Nat Hentof e Nat Shapiro, ou com o punk em Please kill me, de Legs McNeil e Gillian McCain, a história da bossa nova é recontada em primeira pessoa, a partir de uma série de depoimentos intercalados. A eles, Zuza ainda acrescenta sua visão analítica sempre cheia de, hum, bossa, para contextualizar as declarações, amainar um briga ou para mostrar o que era ser um espectador privilegiado neste momento em que o samba, modernizado, ganhou selo de exportação.

Se for para consumir só uma coisinha nessa enxurrada de produtos lançados para comemorar os 50 anos da bossa, essa seria a minha escolha. Um belo livro, que li com gosto neste fim de semana.