Para poucos, mesmo

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Na última sexta, assisti ao show de João Gilberto no auditório Ibirapuera. Desnecessário dizer que foi sublime. João é gênio, e não me atrevo a falar um “a” sobre ele. Me contento em ouvir sua música, sempre esperando mais uma canção ou um próximo show. Então o que faz o pai da bossa neste post?

É o seguinte. Fui convidado para a apresentação por um amigo, aos 45 minutos do segundo tempo. Ele havia ganho o seu convite naquele dia mesmo: um de seus clientes estava na lista de amigos perdidos de João, publicada na coluna da Mônica Bergamo.

Óbvio que fiquei superfeliz com o convite, mas só por um lado. Circulando pelo saguão do auditório, encontrei muitos amigos e conhecidos. À exceção de um casal, todos haviam sido, como eu, convidados para o show (ou, para ser mais exato, descolado um convite). Aí me vem a dúvida: quanto dos ingressos para um dos shows mais requisitados do ano são realmente postos à venda para o público? Será que o sistema da Ticketmaster cai porque a procura é alucinante ou porque o número de ingressos colocados à venda é pífio e derrubar o sistema se mostra uma estratégia boa? Pode um show que usa renúncia fiscal para a sua captação de recursos ser tão exclusivo assim? É justo o show virar um privilégio para aqueles bem afortunados que são amigos do banco patrocinador? Um banco precisa mesmo deixar de pagar imposto para bancar um show do João Gilberto?

Claro que a resposta para todas essas questões é um retumbante não. O mínimo de contrapartida, nesses casos, seria um show aberto, gratuito, para que o dinheiro que é no fim das contas público fosse utilizado não apenas para levar a cultura do Brasil a uma casta de privilegiados. Aposto que agora, com o show de Caetano Veloso e Roberto Carlos cantando Tom Jobim, a ladainha será a mesma.