Tchubaruba no oráculo

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Hype que é hype é assim. Hoje estava procurando uma banda no MySpace e, por conta de um ataque rápido de DDA, digitei só myspace no buscador e dei enter. Claro, a primeira entrada era o próprio site do MySpace. A segunda? Mallu Magalhães. Até tu Google?

Tentei passar ao largo da questão que se formou em torno dessa menina que canta bem, tem músicas legais, mas que ainda não superou a necessidade de ouvi-la levando em conta um certo handicap. Suas músicas são legais para uma menina da idade dela, que ouve com certeza sons mais bacanas do que os macaqueados pela Malhação. Mas acho que o fenômeno Mallu Magalhães tem mais a ver com mídia, com a ejaculação precoce permanete para escontrar algo minimanete bom que bombe (quem serão os novos Los Hermanos?) do que com ouvidos atentos.

De novo, a música da Mallu Magalhães é legal e essa volta do folk também é bastante convincente. Embora, é bom dizer, venha travestida de um espírito muito distante tanto das canções apalachianas registradas pelo Harry Smith quanto das construções sociais de Leadbelly e Woodie Guthrie. Isso sem falar que não há quase nenhuma conexão óbvia com o folk do Reino Unido, que desemboca na vertente inglesa do folk-rock dos anos 60. As músicas da Mallu, por mais que sejam bonitas, são uma diluição dessas influências sessentitas – Dylan, Joan Baez, Joni Mitchell, Nick Drake, Vashti Bunyan. Digo isso sem saber se ela ouviu essas coisas mesmo, mas desconfio que sim. Fato é que, hoje, um banquinho e um violão com uma pegada mais indie vira folk no automático.

Mas o que me incomoda nesses nossos tempos crossmedia não é saber se determinado artista está ou não alinhado de fato, corpo e alma com essa ou aquela tradição. O problema é ver essa sucessão de tsunamis virando marolas rapidamente. É uma questão ligada diretamente ao quanto a informação é descartável. Há um excesso de informações ligeiras e homegeneizadas e pouco tempo para o que os antigos chamavam de fruição.

Hoje mal ouvimos discos. A regra é o apego e o desapego a faixas, uma herança maldita da aceleração e da mutação constante da música eletrônica que, de certa maneira, desarmou, por falta de parâmetros justos, todo um pensamento crítico em relação à música. E sintoma também da orferta non-stop de novidades.

Aqui também não é o lugar para o descaso com o novo. Pelo contrário, nada melhor do que descobrir uma banda nova, um novo estilo, o mesmo um relançamento menos usual. A questão é a falta que faz não ter o tempo de morar numa determinada obra ao ponto de poder compreender as questões que ela levanta, como ela se relaciona com sua própria ambição artísitica, e, sobretudo, qual é a relevância de seu diálogo com o mundo exterior e com aquele que a percebe, seja de forma racional ou sensorial.

Na aceleração de hoje, vale mais colocar no blog, no jornal ou na revista uma impressão meio capenga, para cumprir um papel de antenado, para ficar bem na turminha, do que pensar – e realmente ouvir – antes de escrever. Isso não é um problema que impacta só a crítica com superficialidades e impressionismos. Acaba por contaminar a própria maneira como ouvimos música e, principalmente o prazer de ouvir.

Música não é competição nem matéria de almanaque. Como toda forma de arte, só se torna relevante a partir de um determinado momento de iluminação – e dá para ter esse momento com Chopin ou com o funk carioca – mas é preciso atenção para perceber os sinais e conseguir um insight. Uma atenção que só se ganha quando se percebe que teorias da moda como a cauda longa do Chris Anderson não servem apenas como guia para sobreviver num mercado à mingua, mas como reforço positivo para ir atrás daquelas obras que parecem verdadeiras, dignas de tomar conta do nosso tempo. E, para encontrar essa verdade, é preciso ir além da cópia, da informação-tang, que não pode ser espremida, mas funciona super bem quando adicionamos água.

Ufa, em tempo: as adolescentes Mallu Magalhães e Stephanie Toth, e a adulta Bluebell fazem shows no projeto de as minas do folk no Sesc Vila Mariana de 11 a 16 de junho.