Blueberry nights e o blues

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Não é só a presença de Norah Jones no papel principal nem o toque sempre certeiro de Ry Cooder na trilha sonora. Assistindo ontem no cinema a Um beijo roubado (My blueberry nights), de Wong Kar Wai, não conseguia tirar o blues da cabeça.

A relação não é a mais óbvia com a trilha sonora, mas é a própria construção cinematográfica e de roteiro d0 filme que me lembraram o blues. E são muitos os pontos de conexão.

Em primeiro lugar, há uma sobreposição de culturas. A despeito de sua origem, o olhar do diretor para os Estados Unidos é tudo menos estrangeiro. E o blues não poderia ser mais americano apesar de suas origens africanas.

Kar Wai é um mestre ao contar histórias e pintar com a câmera, e faz isso sempre de um ponto de vista íntimo. O blues também sempre parte da intimidade, da experiência pessoal, para pintar um retrato aberto, onde podemos inferir nossos sentimentos.

O filme é uma fábula enganadora sobre o amor. No fundo, seus temas são o a confiança, a morte, o vício, o abandono, a estrada, a dificuldade de cruzar os limites pessoais, de inventar uma nova persona a partir do autoconhecimento. E esses são temas clássicos do blues. Poderia enumerar uma série de músicas, mas por serem tantas, tornam-se desnecessárias.

Por fim, há uma magia no fazer cinema de Kar Wai. Aí a comparação é com a escala pentatônica. A sequência das notas não é nenhuma novidade, sabemos o que esperar, mas há sempre uma nota dobrada, um acento especial, algo que transmite a alma do bluesman quando ele escolhe que notas usar da escala. Kar Wai também não sai muito da pauta. Apesar de manejar sua câmera às vezes de forma surpreendente, sabemos onde ele vai chegar desde o início, mas é como ele escolhe chegar lá, como ele enquadra a cena, o tratamento que dá para luz e grão que o tornam tão diferenciado. E isso é o blues.

Em tempo: adorei a pequena e matadora participação da Cat Power no filme.