Discofonia 69 – Fim da Linha

fim da linhaEstive em Portland, nos EUA, nesta semana e acabei sem tempo de blogar, mas, para o fim de semana eu deixo um podcast com a trilha sonora do filme Fim da Linha, dirigido pelo Gustavo Steinberg e escrito por nós dois. A trilha do filme foi feita por mim, pelo Gustavo e pela mulher dele, Maria Brant. Tinha gravado com os dois, mas, na edição, destruí o áudio. Fui limpar os ruídos e acabei com as falas que pareciam daquelas reportagens que disfarçam a voz do criminoso. Acabei jogando tudo fora e gravei de novo, sozinho, só o essencial. Não pudemos gravar outro take porque, nesse meio tempo, nasceu a Isadora, filha do Gustavo e da Maria, e este podcast, claro, é dedicado a ela.

Mas, para não perder tudo o que foi gravado na nossa primeira conversa, reproduzo abaixo alguns trechos, que contextualizam as músicas do podcast:

Guilherme Werneck – Foi um barato fazer a trilha a três…
Gustavo Steinberg– Foi divertido, cada um foi jogando suas idéias e acabou saindo uma trilha variada, tão variada quanto o filme.
GW – Por que você escolheu Gogol Bordelllo para abrir o filme?
GS – Não sei, boa pergunta. É uma música que eu escutei bastante quando estava em Londres, aliás, tem algumas músicas do filme são herança do ano que eu e a Maria passamos em Londres. Sei lá, combina muito com os créditos de abertura. Quando eu decidi colocar a chuva de dinheiro com a apresentação de cada um dos membros da equipe, vi que Nomadic Chronicle era uma música muito marcada e, pela marcação do comecinho, ela casa bem com as cenas documentais do início do filme, que mostram o Carlo Ponzi, o inventor do esquema de pirâmide.

GW – A gente toca muito PexbaA, que é uma banda de Minas que eu adoro e tem uma história boa: quando o Gustavo veio em casa para olhar os meus discos ele disse: “Qual é a coisa mais esquisita que você tem?” Eu disse: “Você quer estranho mesmo?””Quero estranho.” Aí eu peguei o PexBaA.
GS – Foi engraçado que o Gui não veio com um monte de opções, porque geralmente sempre que eu pedia uma música assim, assado, ele trazia uma série de opções. Quando eu pedi uma coisa esquisita mesmo, ele só me deu uma opção e é lógico que ela está no filme abundantemente.

GW – E como apareceu o La Rue Kétanou, que eu não conhecia?
Maria Brant – Como o Gustavo disse, parte da músicas que estão no filme surgiram no tempo que a gente passou em Londres, e La Rue Kétanou é um grupo francês e nos foi apresentado por um amigo inglês, o Mike, que morou na nossa casa. A gente ouvia quase todo dia enquanto a gente cozinhava, porque o som ficava do lado da cozinha. Então é uma música que para a gente diz muita coisa e a letra é superengraçada.
GS – Principalmente porque a gente coloca a música inteira numa cena que tem a surda-muda, personagem do filme, brigando com um catador de papel. A letra da música diz “você fala demais” e colocar isso em cima da surda-muda é uma brincadeira a mais.

GW -A sorte é um tema central do filme e foi escolhida uma música do Cartola para ilustrar isso que é Que Infeliz Sorte…
GS – Essa música quem deu a palavra final foi o Lessandro, montador do filme. A gente levou algumas opções e ele gamou na música do Cartola, porque aparece numa hora em que nós voltamos ao documentário do Carlo Ponzi, justamente num momento da vida dele que, depois de tudo dar certo, tudo começa a dar errado e não pára mais até o fim da vida dele.
GW – Tem também muito o Cidadão Instigado que, para mim, é das bandas mais bem aproveitadas no filme porque entra tanto com a ironia de Os Urubus Só Pensam em Te Comer, no final, como também com as canções mais românticas, tão boas quanto as do Roberto Carlos.
GSTe Encontra Logo tem o refrão “Acho que estou te esperando…” e a gente fez casar com um momento absurdo do personagem do Leonardo Medeiros, o Artur. Ele aparece correndo com a carroça do catador de papel, com um bebê em cima, entrando num táxi sem que a taxista perceba. Por coincidência, era o mesmo táxi que ele estava antes, e quando a gente vê a taxista toca o refão.

GW – Monserrat, do Bajofondo Tango Club, é uma música que pontua o filme todo, não?
GS – A trilha é muito variada e combina com o filme, que é um painel cheio de personagens com uma trama toda ligada e paralela. Por isso a gente escolheu certas músicas para pontuar certos personagens. Essa do Bajofond sempre toca quando aparecem os velhinhos do asilo que viram motoboys. No filme também tem um grande clipe musical, onde são amarradas várias histórias, e essa música é colocada do começo ao fim. Como o Gui sempre fala, parece que a música foi feita para o Fim da Linha.
GW– Nesse bloco também tem uma música do Andrew Bird, Eugene, que foi uma das últimas escolhidas. E eu fiquei muito feliz de ter entrado. Ela é do meio da carreira dele e casou bem com uma cena bem importante que é uma descida de escada vertiginosa.

GW – Maria, o som do Spoon foi você que escolhe, né?
MB
– Foi, em certo sentido. Porque a música do Spoon é um outra que veio de Londres. Eu ouvi pela primeira vez no rádio, quando eu estava num ônibus, voltando para casa da universidade. E fui atrás da banda. Aqui no Brasil, a gente tinha aqueles CDs de compilações e ouvindo um dia o Gustavo achou que encaixava numa cena. Ficou tão boa que mesmo sendo das músicas mais caras a ser compradas, não dava para abrir mão, porque já estava difícil imaginar a cena sem essa música.
GW – Nesse bloco também tem a Pequeña Orchesta Reincidentes, uma banda que eu descobri na Argentina e que fez, entre outras coisas, a trilha do Whisky, um filme uruguaio muito bacana. E eles foram ótimos na negociação, não é?
GS – Foi engraçada essa negociação porque eles são super gente boa. Como nós eles são totalmente indepentes. O filme fala sobre dinheiro, eles fizeram uma música que fala sobre estar sem dinheiro, e a negocição foi engraçada porque o tempo todo a gente ficou brincando com o título da música. Eles falavam: “Paga um pouco mais porque a gente tá sem dinheiro”. E a gente regateava. Lembro que no último e-mail que a gente trocou, depois de meses, porque demorou para a gente ter o dinheiro para pagar a música, eles mandaram finalmente uma resposta de e-mail assim: “Con dinero!”. E a música obviamente tem tudo a ver com o filme.

Bom, abaixo, a lista dos sons do podcast:

1. Nomadic ChronicleGogol Bordello
2. YabaPexBaA
3. Tu Parles TropLa Rue Kétanou
4. Jazzin Babies BluesTraditional Jazz Band
5. Noginic – PexBaA
6. Te Encongtra LogoCidadão Instigado
7. Que Infeliz SorteCartola
8. MontserratBajofondo Tango Club
9. O Tempo – Cidadão Instigado
10. Vlu – PexBaA
11. EugeneAndrew Bird
12. Aeroporto – PexBaA
13. Ala z – PexBaA
14. Sin dineroPequeña Orchesta Reincidentes
15. The Way we Get bySpoon
16. Chorinho Cabuloso Jacob do Bandolim
17. Os Urubus Só Pensam em te Comer – Cidadão Instigado

Download Ouça o Discofonia 69 – Fim da Linha